Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

A DERROCADA


(Publicado nas Cartas do Leitor do DN de 6 de Janeiro de 2012)

Somos uma terra de aluviões e derrocadas. Uma inevitabilidade da mãe natureza. Mas nada que se compare com o aluvião de dificuldades que atravessamos e a derrocada iminente de um sistema político, esse evitável, mas que por vontade de uma maioria nos tem governado já lá vão 35 anos. São reembolsos de consultas suspensos, salários em atraso em empresas públicas, dívidas colossais a fornecedores, dívidas às farmácias que põem em causa descontos nos medicamentos, escolas sem o mínimo de recursos básicos, e por aí além...
As pessoas começam a compreender que estas dificuldades representam um abandono e uma quebra do dever básico por parte de quem as governa: o dever de garantir aos governados um mínimo de bem-estar e condições de subsistência. Dificuldades agravadas por um poder refastelado numa maioria parlamentar, que ocupa o aparelho da governação e domina uma grande maioria de instituições da sociedade civil, desde o inicio da Autonomia, sem escutar e ouvir outros contributos, a não ser aqueles dentro das suas fileiras partidárias.
Esta forma de exercer o poder, a incapacidade negocial, a  ausência de medidas que rompam com este estado de sítio e reorientem o nosso rumo, fará com que os cidadãos comuns, não falo já dos "miseráveis" e excluídos sociais, considerem que o "pai" que até agora os protegeu, se comporta como um padrasto cruel, que lhes corta a "mesada" e põe em risco a sua subsistência. São essas pessoas, incluindo aquelas que sempre votaram no partido do poder, que confrontadas diariamente com a ausência de futuro, têm legitimidade para provocar as alterações que se impõem e romper com este paternalismo ilusório. Não só é legítimo, como é imprescindível. Por uma questão de sobrevivência.

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