A democracia na Madeira foi instituída num ambiente de medo. A Autonomia nasceu no berço do medo, o medo do passado colonial e o medo futuro. Uma pluralidade de temores e incertezas empolados por bombas e atentados. Tanto que aqui o medo dá pelo nome de receio.
Uma Região fechada sobre si e imune do mundo real, centrada numa figura paternal, que defende o povo de poderosos “ inimigos” externos. Uma Região que forjou uma realidade e que fabricou uma identidade assente no medo. Uma realidade alicerçada num mundo político onde um só poder podia dar garantias de tranquilidade, de segurança e de progresso.
O terreno era propício para plantar o medo como fertilizante para o crescimento de um poder autoritário e paternalista, que asseguraria o desenvolvimento e venceria o atraso de séculos de esquecimento. Implantado e fortalecido pelos dinheiros que chegavam da União Europeia, continuou-se a lançar o medo e os fantasmas sobre a população, num mundo em que só a estabilidade ao longo dos tempos poderia garantir o triunfo do povo superior. E lá se foi entranhando a hostilidade ao diferente e alimentando os perigos e os riscos de uma mudança. Instalou-se a ideia de que só uns eram (sobre)dotados da razão, do saber e da capacidade. Uns verdadeiros iluminados.
Tudo é previsível neste tipo de poder enraizado: as cenas repetem-se, os protagonistas são os mesmos, a argumentação imutável e os problemas sistematicamente desvalorizados. Fabricam-se verdades, negam-se evidências, sacodem-se as culpas e utiliza-se a vitimização como arte perante a incapacidade de resolução. O exemplo de tudo isto, sintetiza-se numa frase que Alberto João Jardim proferiu na conferência de imprensa, onde divulgou a conhecida carta de intenções e as medidas drásticas que se sabem: “Não se concretizam os catastrofismos anunciados pelas forças hostis ao povo madeirense”.
Já José Gil, no seu livro “Portugal Hoje, o Medo de Existir”, fala no “nevoeiro” que paira sobre a nossa nação, que aqui na Região, se mistura com a maresia que dilui a realidade e retira capacidade de reagir e de querer mudar.
Os tempos são de confronto com o real e de quebrar este mundo cristalizado. Impõe-se romper neste “cantinho do céu”, a ideia de que está tudo arrumado e de que o que está fora do lugar é culpa dos outros. Esta é a primeira premissa para a mudança. A segunda é a de abrir possibilidades futuras e reorientar o rumo com outras propostas e novas ideias. As escolhas não podem ser cegas. Têm de ser claras, reais, de conteúdo e com sentido.
O futuro não pode ser uma reprodução do presente. Está na hora de mudar.

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